01
Jul
José Sarney

A imprensa brasileira agora gira em torno de um tema específico, além da morte de Michael Jackson: as irregularidades presentes na contratação e no pagamento de funcionários do Congresso, popularmente conhecidas como atos secretos. E vejam só quem está nos holofotes de mais um escândalo de corrupção no Brasil: sim, senhores, o bigode em forma de homem, o fóssil vivo da nossa política, ícone do coronelismo moderno: José Sarney.

O leitor, que provavelmente conhece bem o cenário político do país, começa a cantar com Ronnie Von: na mesma praça, no mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim… Não é a primeira vez que se encontra na mesma frase as palavras “escândalo”, “parentes” e “favorecimento” atreladas ao nome do douto presidente do Senado. Afinal de contas, bem como outros grandes dinossauros como Antônio Carlos Magalhães (foi tarde) e Paulo Maluf, tem um vasto currículo na política nacional – e em problemas como este também.

Eu realmente acredito que se o ACM não estivesse morto, faria uma carreira de sucesso como palestrante em presídios com o tema “NUNCA EM FLAGOROSO PERFEITO”. Eis uma boa idéia para José Sarney, se, num mundo ideal (privilégio do Alladin e dos contos de fada), ele realmente saísse do Senado e da política para todo o sempre. Se Michael foi o Rei do Pop, ACM foi certamente o Rei da Falcatrua. Ops, não se pode falar mal dos mortos. Ele foi um senhor ímpar, de caráter ilibado, tão puro, tão virtuoso e… Nem eu acredito em mim quando digo isso, será que ele acreditaria? Duvido. Ouço risadas no Além.

Claro que, após a onda de escândalos derivados destas notícias – que vão desde a relação dos “secretas” com os parlamentares até as declarações dos mesmos a respeito – surgem inúmeros pronunciamentos exaltados tratando destes eventos. O que chama a atenção nestes manifestos não é a qualidade dos argumentos, que em sua maioria são primorosos, mas sim o objeto de argumentação. Poucos se empenham na análise dos atos secretos da Casa. Em geral, estão todos formando opinião tendo como base a pessoa do presidente do Senado e seus feitos na política do país. Não que isso seja errado, mas… Estão atrasados e discursando mais sobre o óbvio, em vez de dissecar a mais nova façanha de autoria do bigode – e mais importante: ressaltar as origens dela e trazer soluções para que ela não se repita.

Na verdade, as manifestações iniciaram-se, em sua maioria, após a declaração do presidente Lula, de que Sarney não deveria ser tratado como um comum. Isso provocou muitas discussões para rebater esta afirmação, invocando princípios do ordenamento jurídico brasileiro – até então no ostracismo por N razões. É engraçado como algo que deveria ser de conhecimento e domínio público em todas as ocasiões só é convenientemente lembrado quando se precisa atacar – ou defender – determinada peça chave em esquemas de alianças partidárias para as eleições. Ops, estamos em ano de eleição.

É a segunda vez que afirmo isto no neste espaço. E eu sei que muitos leram e pensaram: “besteira, o que ela escreve. Nem sequer sabe quando teremos eleições”. Eu sei que não é ano eleitoral.

Então, eu pergunto: quantos candidatos e alianças já nos foram apresentados? Até onde sei, é ilegal fazer campanha fora do período permitido pelas leis eleitorais, mas essa parte, provavelmente esqueceram de mencionar. E até onde sei, essa dança das cadeiras promovida pelas alianças partidárias também: não faz muito tempo que os tribunais começaram a discutir a fidelidade partidária – e aplicarem punições severas(porque os senhores políticos só entendem quando se mexe no bolsinho deles) aos que não param quietos num canto.

Aliás, parece moda… Sempre que estamos às vésperas de eleições, surge algum escândalo de corrupção de proporções colossais para provocar comoção nacional e manifestações exaltadas da população. Muros são pichados, pessoas lotam o MASP para passeatas, entrevistas de grandes cientistas políticos são feitas, e o Datena dá picos de audiência com seu discurso indignado. Sempre a mesma coisa – nem os personagens mudam mais, só trocam de lugar na trama. E os números também mudam: antes era na base da centena, e trocou-se pelo milhar, fomos pra casa do milhão e… Bilhões agora? É moda. E depois do choque e da balbúrdia, o show da Comissão de Ética.

Alguns renunciam, outros são cassados, outros inocentados, tudo é esquecido e perdoado. Nas eleições eles voltam, pedindo votos diretamente ou não – basta estar aliado ao partido vencedor para ganhar sua cadeirinha no Congresso ou num dos Ministérios, e plus, um chapéu com estrelinha na testa! E a história nunca muda mas eu acho que já disse isso antes. Mas o que teriam as eleições a ver com os escândalos na Casa legislativa? E por que, exatamente, a declaração de Luís Inácio Lula da Silva teve tanto peso e tanta repercussão no episódio, a ponto de chocar muito mais que o feito dos nossos representantes – porque depois que Luís Inácio, agora picareta e com anel de doutor também (já que somos todos jornalistas) falou, ficaram todos indignados porque ele disse que Sarney não deveria ser tratado como um ladrão comum. É mais importante discutir o pedigree do meliante que o crime em si?

Acho que todos nós sabemos as respostas. Todos somos bons alunos e passamos de ano decorando bem a matéria da cidadania: vamos todos lá votar felizes toda vez, mesmo que votemos em branco, ou no Clodovil (a grande piada? Votaram nele de palhaçada. E o palhaço lá queria fazer muito mais pela brava gente que os homens sérios e íntegros como… Ah, cansei de digitar o nome do bigodudo). Nós passamos de ano sempre, com estrela na testa. Mas nós realmente sabemos o que é cidadania? Será que nós realmente sabemos votar?

Se soubéssemos, ninguém estaria por aí fazendo campanha eleitoral na nossa cara, quando é proibido por lei – lei que é nossa, afinal de contas, nós é que somos o tal do povo de quem emana todo o poder (e o dinheiro para poder) – fazer isso fora de período eleitoral. Se realmente soubéssemos o que é política, o PMDB sequer existiria mais. E se soubéssemos o que é cidadania, com certeza, Sarney teria sido obliterado em todos os níveis de pedigree político.

Mas enfim. O Rei está morto. E enquanto o Brasil chora a falta que Michael Jackson faz, os doutos senhores lá em Brasília respiram aliviados por estarem esquecidos – ao menos por um tempo. O suficiente para armarem as barracas do show de sempre. É a homenagem deles a Mr. Jackson, o maior showman de todos os tempos: para prestar seu respeito, os homens de Brasília preparam um espetáculo que arrebatará os brasileiros, como tantas outras vezes… Porque eles são maus.

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:: Comentários

    gravatar mdom 01-07-09 - 17:32
    Confesso que não sabia que propaganda eleitoral era proibida por lei fora dos tempos de eleição…

    Por lei – prestes a ser modificada – a propaganda eleitoral só é permitida 90 dias antes do início do ciclo de eleições. Falta muuuuuuuito tempo, mas o Serra já está no Twitter fazendo campanha para 2010. E Dilma Roussef já foi apresentada mais de uma vez como candidata, inclusive estampando a capa da Veja com esse título. Isso sem falar das alianças de campanha sendo costuradas abertamente. Tudo isso induz a opinião pública fora do período de avaliação eleitoral – o que a li já coibiu, mas que continua em prática.


    gravatar rafael 01-07-09 - 17:47
    Faz tempo que um político foi cassado no Brasil. Sempre renunciam antes para não perder o cargo e pronto.. parece que está tudo bem. Sempre é sugerido no máximo uma cassação, ou até menos como o afastamento do cargo. Nenhuma investigação séria é feita, ninguém é punido.

    Na minha opinião, cassação não é punição. Renunciar um cargo ou devolver o dinheiro público que a filha gastou na viagem de Paris não representa nada. Deveriam ser punidos seriamente.

    Lula não precisa declarar nada em defesa do Sarney. Está claro há muito tempo que todos eles recebem um tratamento diferenciado por serem políticos.

    Raphaella Reis: Gostei desta maneira de expor os fatos. Cartas na mesa… E agora, como proceder? O poder é seu pra fazer o que precisar ser feito.


    gravatar Victor 02-07-09 - 3:12
    Muito bom!! =D

    Raphaella Reis: Obrigada!


    gravatar Jujubalândia 03-07-09 - 10:55
    Uma que se a lei é nossa, ou deles, que seja, eles sempre criam um jeito burlar, de criar a exceção para isso, fazem vista grossa.

    Raphaella Reis: A lei é nossa. Cabe a nós fiscalizar pra ninguém burlar – nós mulheres sabemos muito bem como fazer isso. Politics and sex are very much alike.


    gravatar Fabrício 04-07-09 - 17:57
    Esses safados só vão deixar de aprontar qdo tiverem na cova mesmo…

    Como sempre, mandou muito bem, Rapha! =**

    Raphaella Reis: Será essa a solução? Vamos chamar o Bial, os fuzileiros navais e organizar o paredão?


    gravatar Carlos Saraiva 08-07-09 - 16:58
    Mudar o cenário politico, os politicos. Não sei porque soa tão utópico para mim.
    Sinto que no Brasil as pessoas gostam de se enganar, de auto-afirmar que são felizes apesar das dificuldades. Precisamos ser rabugentos e amargurados, ressentidos, expressar o que realmente se passa. Eu digo todos, não apenas um ou outro que o que sempre ocorre. Se vendemos muito fácil para qualquer promessa por uma incrivel carencia e baixa estima: “Sou brasileiro, é assim mesmo, vou comer bosta” .

    Raphaella Reis: Talvez a utopia venha do fato de precisarmos mudar a consciência política das pessoas, antes de mudarmos o cenário político.


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