14
Jul

Estamos na era da Internet. Já estivemos na era do fogo, do papiro, fogo de novo (mas dessa vez, era o Santo Fogo), da filosofia, do torno… Nosso mundo passou por muitas reviravoltas. Mas provavelmente nenhuma delas teve um impacto tão intenso quanto a revolução tecnológica de hoje. Como foi dito por Marcelo Tas, a internet nos permite saber de tudo que quisermos em questão de horas; seja no Youtube, no Google ou no Global Voices, temos acesso praticamente ilimitado a todo tipo de informação, e muitas vezes, em tempo real. Temos muito mais interatividade com quem influencia nossas vidas, pois estão todos ao nosso alcance. Até Deus está no Twitter – quem não acreditar, pode visitar O Criador.

A internet é uma ferramenta que, com força descomunal, conecta as pessoas ao redor do globo e gera mobilizações nunca antes vistas – como o próprio Tas disse, precisamos de muito tempo para levar as Diretas Já (não sabe o que é? Estude e dê valor ao que tem) ao topo, e nem assim conseguimos a visibilidade almejada; as eleições iranianas precisaram de muito menos para estar em foco.

A informação está toda aí. Mas temos o conhecimento para absorver tudo que está aí? E discernimento para analisar e formar uma opinião que seja nossa, sem interferência tendenciosa? Temos condições de, com esse processo, mobilizar os semelhantes para chegar a um resultado satisfatório? Ah, agora começa a parte espinhosa da coisa. Vamos lá. Já pegaram pratos e talheres? Hora de mais um pedaço de pizza.

José Sarney – e outros; não deixe o foco nos atuais escândalos ofuscar o fato dele NÃO ser o único no poder com estes predicados. Tenha memória, caro Eleitor – está aí desde que nossas mães usavam fraldas. Provavelmente somos um dos poucos países no mundo que possuem dinossauros ainda vivos. O senhor José Ribamar é um verdadeiro coronelius politicus invictus, da espécie corruptus (e isso seria cômico, caro leitor, se não fosse tão trágico). Mas de repente, as pessoas se enjoaram do Jurassic Park político e vão brincar de colocar tag nos trending topics do Twitter. Pronto, Spielberg tem mais um blockbuster. E… #forasarney.

Bucólico, e com certo percentual de sucesso também. Mas a proposta, a forma e as vozes desse movimento foram deturpadas; e a manifestação popular de peso transformou-se numa das primeiras manadas bovinas virtuais exclusivamente brasileiras, comandada por meia dúzia de “célebres” peões.

O mais triste é que o Fora Sarney teve uma chance mínima – mas real – de se tornar algo significativo na história digital brasileira. O Professor Tibúrcio já apontou os pontos mais sagazes dessa campanha. Mas ela perdeu a oportunidade. É só comparar a resposta do #forasarney ao empenho dos internautas na solução do assassinato brutal de um cachorro, ambos ocorridos no Twitter. Em vez de usar a ferramenta para trazer debates e informações saudáveis para o crescimento da consciência política do país – como fizeram os amiguinhos iranianos, que agora adquirem muito conhecimento sobre política e cidadania, e exercendo uma, compartilham mudanças na estrutura da outra com o mundo – as pessoas simplesmente quiseram emplacar o #forasarney. O Brasil queria ser moda.

E quem via o movimento, não sabia se os brasileiros falavam do próprio governo ou da nova sextape de Paris Hilton. E só no meio do caminho lembramos que o tal movimento tinha um significado real – aí, ele esfriou. Justamente quando deveria ganhar força, cedeu a vez para o pobre cãozinho assassinado – e escondeu dos holofotes a absolvição do Senhor do Castelo, Edmar Moreira, outro dos nossos doutos parlamentares, muito justos e íntegros, exemplos de moral neste país.

Sejamos sinceros: não entendemos a estrutura governamental do país e nem temos interesse em entender – a informação está ao vento, e o conhecimento solto na internet e nas bibliotecas; ninguém procura saber, e se as coisas surgem, ninguém quer exercer.

Aliás, ninguém perguntou, mas Sarney PODE SIM ser processado pelos “comuns”. Esse pedaço, a Globo não conta. Mas você, pessoa concursada que continua aí sentada no PC aguardando publicação, tem causa de ação, porque foi lesado – os boletins não-publicados constituem fraudem no sistema de concursos públicos (duh) e abrem margem para questionar se os publicados foram lotados integralmente; traduzindo, você pode desconfiar de vagas de concurso desviadas nos últimos 14 anos. Uma delas pode ser a sua. E mesmo que você não seja concursado, você pode entrar na moda da ferida à Carta Magna e coletar assinaturas (ou assinar a coleta de quem já começou esse serviço) para solicitar ação ao Ministério Público mais próximo. Ninguém precisa esperar Conselho de Ética; quem quiser processar, à vontade (não se esqueça de solicitar como relator o ministro Joaquim Barbosa, para garantir a ausência da pizza). E podemos exigir dos nossos representantes que abram novos concursos, pela nulidade desses que aí estão. É seu direito, que você não conhece por não se interessar em procurar, e menos ainda em exercer.

Nada disso importa. O que interessa é futebol, carnaval, praia e piada. Quem quiser me desmentir, esteja à vontade, mas os fatos falam por si só. Por não se entender nada do que acontece em nesse Brasil varonil, o povo – você também, que eu sei – seguiu, feito e – gado, uma manifestação política liderada por figuras cômicas, em ritmo de festa – assim como os cofres públicos e o programa do Sílvio Santos.

O cúmulo do ridículo dessa história toda seria o pedido de ajuda internacional da super celebridade casada com a Pantera vilã – que, de acordo com Vivi Siqueira, seria chamado de #chupamion se Ashton Kutcher soubesse falar português. Mas esqueci da pegadinha do Faustão: todos reprovados nesta escola. Fora, Sarney. Ok, ele sai. E daqui alguns anos, quem estará de volta, carregado na chapa do partido em algum cargo de influência? Ninguém aprendeu nada com o caso Collor que, depois de cassado, está de volta ao poder anos depois – ELEITO, legitimado pelo voto popular – e ainda posando de virtuoso para analisar a crise moral no Senado? O povo não aprendeu que estes dinossauros que temos possuem a incrível habilidade Sexta-Feira 13 – assim como Jason Vorhees, eles voltam no final.

Se você leu até aqui, não adianta sacudir a cabeça reprovando os outros. Porque é com você que estou falando. Caro leitor incauto, caso ninguém tenha informado, saiba: povo é você também. E tudo isso que ocorre é culpa sua, povo. Você permite. Você se omite. Você permanece alienado, sem reivindicar aquilo que é seu por direito. Povo está aí sentado, lendo e agüentando o cheiro do esgoto moral. Povo é você, caro amigo – e você estará lá de bobo alegre na próxima moda que o Christian Pior lançar, e que não vai acrescentar em nada na sua vida; mas continuará mandando quem tenta transmitir algo de bom ficar quieto. O que me leva às cenas do próximo capítulo.

No Twitter temos todo tipo de gente convivendo no estranho mundo da baleia. Os que mais recebem seguidores são as celebridades, que podem dar notoriedade instantânea num único reply ou retweet – não adianta dar unfollow no Tarso Cadore agora, porque ele já contou para todos que você o segue. Os realmente interessantes permanecem no anonimato. Este quadro começa a se inverter – e não, os perfis de candidatos não ficaram interessantes de repente; há muito mais nos tweets que as tentativas de emplacar um Serra 2010. Mas porque certas pessoas anônimas são mais interessantes sem influenciarem em nossa notoriedade? E o que essas pessoas têm a ver com conhecimento, informação, discernimento e essa pizza tão saborosa que é a política nesse país? Bom, tudo isso é assunto para o próximo post. Até lá – isso se você não foi ao fórum me processar por calúnia. Agora você quer saber dos seus direitos e procurar adEvogado, não é povo?

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:: Comentários

    gravatar mdom 14-07-09 - 16:13
    Adorei o texto!
    A ‘massa intelectualizada’ com quem convivo, que supostamente deveria ser mais informada sobre esses assuntos, fica satisfeita em tentar melhorar a si mesmo e já é totalmente descrente da política.

    Raphaella Reis: Na minha opinião, é exatamente aí que eles erram e se tornam ainda piores que os ignorantes. Quem não sabe, pode aprender. Quem sabe e não se importa está entregue à mediocridade.


    gravatar rafael 14-07-09 - 17:41
    Por isso deixei de votar em alguns partidos. Com um sistema de voto desses não posso votar em partidos que tenham um Jader, um Priante, um “ex-mensaleiro”, etc. Não quero ser responsável por levá-los ao poder.

    O movimento no twitter deu uma falsa impressão de que o brasileiro está mais interessado em política, que está revoltado, que está mais informado sobre o que está acontecendo, que quer mudança, etc. Mas no fundo é como o fato de que o Brasil é o país onde as pessoas passam mais tempo conectadas na internet (sim, primeiro no mundo).. mas fazem o que online ? Ficam no Orkut e no Youtube ? Por isso uma grande parte dessas pessoas encararam o #forasarney como diversão e modinha. Acho que esses brasileiros tem potencial pra estragar o Twitter, como estragaram o Orkut (não que eu me importe com o Orkut hehe).

    Raphaella Reis: concordo com você. Mas como já disse antes – virou mantra já – não somos diferentes de ninguém. Somos tão povo quanto os outros. Cabe a nós dar o tom, pois supostamente somos os esclarecidos.


    gravatar tereSafur 14-07-09 - 21:05
    complicado fazer o povo levantar a bunda da frente do computador… via web, acho dificil algo ocorrer… esse é o nosso país :(

    Raphaella Reis: é só não esquecer que povo é você, e a bunda a levantar é a sua. Assim é que se faz um país – bundas levantadas da cadeira e mãos à obra.


    gravatar Zenon de Araújo 15-07-09 - 10:54
    Eu fui um dos primeiros a “twittar” o #forasarney, e cheguei a acreditar, realmente, que era possível exercer influência nas decisões tomadas no Senado através de uma passeata virtual. E penso que representou força, num primeiro momento.

    O movimento chegou ao ápice com a ajuda de celebridades, interessadas em
    “Followers”. O ápice também representou a queda, pois com o apoio de celebridades o #foraSarney deixou de ser real, virou piada, pizza.

    Mas o ponto importante do movimento foi permitir as pessoas um momento de reflexão sobre o problema ético que perpassa todos as unidades da federação, todos os poderes e o povo. O movimento #forasarney lançou luz em mentes obscuras. E em alguns momentos gerou debates, e elucidou para as pessoas que “twittavam” o #forasarney sem saber o porquê.

    Contudo, o movimento acabou virando massa de manobra da grande mídia, quiçá a grande interessada na renúncia de Sarney. Implícito a renúncia existe o interesse político, o jogo político, e o movimento #ForaSarney não percebeu isso. E nesse grande jogo o que menos importa é a ética.

    Os movimentos iniciados na internet vão se fortalecer, existem outros exemplos como o #meganão que está sendo um sucesso do meu ponto de vista. Talvez o grande problema, exposto por você, seja a incapacidade das pessoas assimilarem as informações, se tornado vítimas de análises tendeciosas, enganadoras.

    Parabéns! ótimo texto.

    Raphaella Reis: não adianta ter um momento de reflexão e afogá-lo na cerveja do happy hour, pra voltar pra mesma pasmaceira.


    gravatar Claudinha 15-07-09 - 17:25
    Texto perfeito como sempre e só mais um tapa na nossa cara pra ver se algo muda. Eu, quando assumo algum tipo de movimento na internet espero de verdade que isso mude algo, não adianta dizer que sentando com a bunda na cadeira não da p fazer nada. Na era digital porque nao pode haver mudanças desa forma? Enfim, cada um que sabe o que faz e que conviva com sua consciencia. Já quero o proximo post! rs Bjoos, Rapha!

    Raphaella Reis: É, os meus tapas também batem na minha cara – e como eu me acerto primeiro, sempre dói mais em mim. Cada um sabe de si, mas quando o que se sabe influencia a vida de todos, o mínimo de respeito ao próximo necessário é partilhar. Beijocas


    gravatar Carlos Saraiva 15-07-09 - 20:08
    Na internet tudo é importante e tambem nada é importante. Uso internet desde 98, e lembro desse mesmo entusiasmo, mesmo não tendo a metade das ferrametnas disponveis hoje. A palavra revolução digital estava na boca de todos os intelectuais….
    Era algo anonimo, todos usavam nicks. Como se fosse um espçao aonde todos fossem tratados por igual, uma especie de sentimento hippie.

    Mas hoje ela se organiza, agora usamos nossas proprias identidade. Eu mesmo uso meu nome, e foto. E buscamos nos realizar nesse espaço, ter algum destaque. E esta se tornando fonte de renda para muitos. A revolução do Twitter é justamente fazer os famosos aderirem, nada mais. Isso fara a rede crescer muito. Minha irmã que nunca teve interesse em blogar, agora tem o twitter pela sensção de estar proxima de pessoas a quem admira. Nao sei se eh bom ou ruim. E nem se deveria ser diferente. Fico curioso em saber aonde isso vai chegar, gosto de imaginar cenarios tragicos. Olhem para o lado, quanta informação, quantas pessoas dizendo coisas e tentando atenção. Olha eu aqui buscando atenção. Estamos num cortiço, roupas estendidas, umidade pelas paredes, vozes 24 horas do dia. O que realmente buscamos? Informação, mudanças ou o proximo rock star? A manada tende a seguir coisas, nao importa o lugar. Quem as chamara atenção? Quem vai tocar o gado????

    Raphaella Reis: Lembre-se que você é tão gado quanto eles. Cabe a pergunta: quer tocar ou ser tocado?


    gravatar Rogério 15-07-09 - 22:41
    Você expõe muito bem suas idéias. Escreve muito bem e tem uma visão política perfeita. Concordo com vc em tudo.

    gravatar Jujubalândia 16-07-09 - 10:12
    Eu sou povo, e como quando conversamos, não me ofendi com o que VOCÊ escreveu, e sim, me ofendo com o que vejo acontecer, é muito dificil, quem está acomodado fazer alguma coisa, é comodidade que nos afunda. Até pra mim que estou aqui, é dificil fazer alguma coisa, mas nunca é tarde pra tentar.

    Raphaella Reis: Então, companheira, vamos lá. =)


    gravatar Lais 19-07-09 - 18:08
    Pois é, temos tanto poder nas mãos mas não fazemos nada ( e me incluo nisso).
    Cortar a cabeça do Sarney somente vai fazer nascer outra no lugar. Não sei se um dia essa multiplicaçao deixara de ocorrer. È triste.

    Raphaella Reis: Basta pararmos de lamentar a situação e começar a agir. Aí deixa de ser triste.


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