10
Ago

Com o recente surto de gripe A – porque não se pode difamar o porco; mas tudo bem torturá-lo antes do abate, para obter bistecas mais suculentas – não quero deixar a imunidade de ninguém baixa diante dos sabores deliciosos dessa massa tupiniquim; portanto, hoje servirei alguns petiscos, apenas. Desde já, peço perdão aos leitores; ninguém dá audiência para as coisas do coração – a não ser que estejam na novela das 8 – num blog como o meu. Mas eu peço licença para tratar deste assunto de maneira pessoal, e vocês verão a razão disso se continuarem lendo.

Já trouxe esse tópico milhares de vezes, e não canso de repetir: estamos numa época imediatista e bem democrática, por assim dizer, em termos de informação e de conhecimento. O problema é não aproveitarmos o que temos à mão, para obter o tal do poder.

Antes, o monopólio da notícia era dos grandes nomes da imprensa. Agora, todos podem distribuir informação; não precisamos mais esperar o Cid Moreira ou a Glória Maria falarem sobre para sabermos o que acontece – no resto do mundo, porque não nos interessamos de verdade pelo que ocorre no país.

Alguém sabe o que anda acontecendo lá na Casa Legislativa? Digo, saber MESMO, não estar por dentro. Estar por dentro é como ler o título da notícia no jornal e passar batido. Saber é acompanhar absolutamente tudo sobre determinado assunto. E nisso, ainda dependemos das coberturas – parciais e convenientemente suaves, diga-se de passagem – da Globo.

Você, caro leitor, consegue explicar por que ainda acompanhamos as notícias pela imprensa “consolidada”, se podemos ir direto às fontes e passarmos o conteúdo adiante sem filtros ou máscaras? Não adianta olhar em volta, caro leitor, achando que povo são os outros. Você tem parte nessa atrofia informativa.

A internet propiciou uma abertura imensurável à difusão de informação. E criou uma classe nobre para esta função: os blogueiros. A Tropa de Elite do mundo digital. Verdadeiros desbravadores do novo mundo, tão distante e misterioso – e ainda assim, compacto a ponto de caber num click, dentro de nossas casas.

Antigamente (porque na internet, dois dias equivalem a uma era geológica), fazer parte desse universo paralelo chamado blogosfera era coisa de gente chique. Mas com o tempo, o poder de ter um blog ficou mais acessível, patrocinado pelo Blogger, WordPress, Livejournal e afins. E as pessoas foram seduzidas pela idéia de tocar as outras pessoas, ter uma conta movimentada e super conceitual no Twitter – porque seguir o @marcelotas é coisa de intelectual. Legal mesmo é acompanhar quantas pessoas clicaram em você e enviaram seus links pra outras pessoas e ferramentas. É bom ser amado, é bom ser popular. Concordo com isso e acho válido esse esforço que alguns fazem para receber esses louros.

Mas blogar – já disse o quase poeta – é muito fácil. A Mallu Magalhães bloga. Blogar com compromisso? Ah, aí fica difícil. Muito difícil. E ao esquecer esta parte da barganha, desperdiçamos todo o potencial da ferramenta, conseqüentemente perdendo o poder que ela nos fornece. Aliás, não só perdemos, como damos esse poder todo de graça, para as mesmas pessoas de quem reclamamos todo santo dia.

Todas as pessoas que trabalham com ferramentas digitais querem obter sucesso e popularidade. Nada de errado nessas aspirações, pois todos queremos essas coisas em nossas carreiras e vidas. Mas vale tudo para conseguir isso? Será que vale ter mais de cinco mil hits num post seu, se desses, 4.999 só estiveram lá para ver com os próprios olhos que você plagiou descaradamente? Vale transformar seu blog numa filial do Youtube e conseguir muitas visitas apenas pelo link do vídeo? Vale a pena ter o blog em vários retweets de ódio e repulsa pelas palavras preconceituosas ali escritas? Vale transformar os comentários do post numa sala de chat UOL para conseguir a tag de blog mais comentado do Brasil? É válido depreciar assim a ferramenta – e o conteúdo que ela tem a oferecer –  em prol do status?

De nada adiantaria, nem para esta insolente que vos fala, e nem para o site que cede este humilde espaço, ter 15.000 visitas diárias num vídeo – a não ser que fosse eu a idealizadora do Yes, We Can. Estas visitas só viriam lembrar que existem muitas formas de pobreza, sendo a de espírito a pior e mais escancarada, de longe. O que mais aflige é que essa pobreza está sendo valorizada na blogosfera. Ultimamente, o bom é ser idiota. Mas este “bom” não é válido; nem para mim,  nem a você, caro leitor, que eu venha aqui tecer páginas e mais páginas de pura inutilidade, dando base às palavras do parlamentar Paulo Duque, que disse que opinião pública não existe; quem faz isso é o jornal.

Sou obrigada a desmentir o douto senador – aquele mesmo, unha e carne do Bigode Fossilizado Sarney, que arquivou TODAS as denúncias – porque eu tenho uma opinião a respeito. Eu acho irônico o douto parlamentar dizer que eu não tenho opinião agora, mas na hora das eleições, ele vir ao sossego da minha casa, durante o horário eleitoral, e dizer que a minha opinião, aquela que eu não tenho, porque só o jornal faz, é muito importante – e isso se tiver coragem, porque Paulo Duque é filiado ao único partido que conheço que NUNCA disputa eleição, mas SEMPRE tem cargo lotado. Alguém me explica como eu tenho no Senado do meu país um representante que eu não elegi e sequer concorreu a qualquer coisa?

Eu preciso dessa explicação. Eu preciso entender como é que o PMDB praticamente me nomeia (e a você também, caro leitor) absolutamente incapaz toda vez que ocupa uma cadeira pública sem o devido concurso e ninguém faz nada. Nós não precisamos esperar a Comissão de Ética feito virgem no leito de núpcias esperando o marido; nós podemos fazer algo contra o Sarney, e todos aqueles que usurpam a República. Nós temos direitos, pela Constituição que fizemos nossa. Nós podemos. Mas ficamos sentados esperando, assistindo, reclamando. Para quê? Nós podemos, porque não fazemos?

Eu gostaria agora de proferir toda a sorte de impropérios possíveis e imagináveis para Paulo Duque, mas… Eu não posso. E por que eu não posso? Porque a mediocridade que impera na blogosfera, que antes era vanguarda, tão respeitada e conceituada pelas opiniões emitidas – que quase sempre refletiam os pensamentos da nação – é hoje motivo de chacota e sinônimo de imbecilidade, tendo perdido quase todo o respeito que tinha nesse quesito por conta de seres que fazem em seus blogs todas as coisas dignas e clássicas da pobreza de espírito. Tudo isso para ter o maldito milhão de seguidores no Twitter, os 25 mil comentários num post, os 50 mil hits milimetricamente contados pelo encurtador ou o título fugaz e imbecil da vez.

Sabe o que é pior, caro leitor? A gente deixa. A gente dá Ibope. A gente lê. A gente senta e assiste. Essa cultura vazia de pobreza e imbecilidade em detrimento do nosso discernimento e da nossa pátria só persiste porque a gente deixa.

Mas tudo bem. Não leia este post. Esqueça tudo que eu disse. Vá ser feliz com as fotos da Vanessa Hudgens (de novo). Vá ver o vídeo da garota revoltada com o requisito no concurso da Garota da Laje. Sente-se em sua sala espaçosa, assista a rápida reportagem da Globo sobre o recurso dos parlamentares petistas contra o arquivamento das denúncias por Paulo Duque. Reclame um pouco. Depois dê de ombros, e finja que nada disso é problema seu. Afinal de contas, povo são os outros.

Se o petisco foi indigesto demais, caro leitor, esteja aliviado por ser só um aperitivo. Imagine que triste seria se eu servisse a pizza. Mas sempre temos a próxima rodada; aguardem ansiosos, ou não. Processem-me – porque quando o incauto fala algumas verdades, ele merece ser processado. Mas o Sarney, a gente deixa esperar os super amigos do Conselho de Ética. Tudo bem se Mallu Magalhães processar esta insolente – mas que pelo menos aprenda a soletrar “ignomínia” antes.

*foi brincadeira, Malluzinha. Chora não. Vai borrar a maquiagem.*

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:: Comentários

    gravatar mdom 10-08-09 - 20:33
    Adorei essa de ‘povo são os outros’!
    Quando minha mãe falou que as mulheres peladas nos reality shows davam mau exemplo pros jovens, eu falei que então ela devia parar de ler revista e de assistir essas porcarias…

    Raphaella Reis: Você estava certa! Quanto menos audiência essas coisas têm, menos destaque as grandes redes de TV, rádio, revistas e afins dão. E sobra a alternativa: oferecer qualidade.


    gravatar Claudinha 10-08-09 - 20:49
    Termina sempre na mesma história…pizza pra tudo quanto é lado. O pior é que eu ainda tinha esperança de que esse coronel Sarney fosse se aposentar de vez das roubalheiras, mas foi só mais uma vergonha no meio de tantas outras que já aconteceram (quem ai esqueceu Collor, Renan e toda uma corja que se apossou do nosso dinheiro) e de outras que ainda acontecerão. Eu gosto de estar por dentro do que acontece na política, mas confesso que diante de tanta PUTARIA a gente realmente perde as forças e esperanças…tomara que algum dia eu possa reavê-las.

    Bjos, Rapha.

    Raphaella Reis: Então… Vamos reaver essas esperanças logo, porque sem elas, não dá pra lutar.


    gravatar rafael 10-08-09 - 21:03
    Boa diferença, quem está por dentro e olha só superficialmente não deve estar nem sabendo do joguinho político do PMDB e sua gangue, não sabe porque Lula defende Sarney e etc.. e no fim direcionam sua raiva para Paulo Duque, alguém que não está nem se lixando pra nós (já são tantos que admitem isso né ?). Nem adianta falar que não vai votar nele, ele não vai se candidatar. Mas todos os outros corruptos do PMDB vão e vão continuar no poder dessa forma.

    Raphaella Reis: Aí eu pergunto quantos candidatos do PMDB você viu nas últimas eleições. Zero? Pois é. O PMDB só consegue cadeiras fazendo alianças. Poucos candidatos ainda disputam e conseguem se eleger, comprando votos com o assistencialismo. E nós aqui, deixando.


    gravatar Mish 10-08-09 - 21:17
    Legal falar em nossos, ditos, Direitos Constitucionais… Mas aposto que você tem a sensação que eu em vários casos.
    Constituição para um político? Ah, é só um livrinho de estante. Sem efeito nenhum. E com palavras bonitas!
    Na Constituição há uma “frase” linda que fala sobre a perda de mandato pra quem tiver procedimento declarado incompatível com o decoro parlamentar… Até hoje pergunto o que seria esse tal decoro parlamentar. Porque, certamente, não é o que eu imaginava. Se fosse, já teria muito Senador e Deputado sem mandato.
    O melhor é que se algum senador vier ocupar o cargo, quem irá substituí-lo? Alguém qualquer que não obteve votos mínimos para ocupar qualquer cargo na casa. Uma pessoa sem nenhum compromisso com ninguém, porque voto ele não teve.
    Sinceramente? A cada dia que passa minhas ideologias caem por terra. Primeiro porque a própria Constituição é piada. Com 21 anos de existência, já tem 57 emendas. E dizem que a Ela adota a classificação “Rígida” de Estabilidade! Rígida só no papel! Além de ser ignorada por vários Políticos.
    E, segundo, porque quem realmente são os corruptos são os que dominam o “poder”. E isso faz há muitos e muitos anos. Nós, cidadãos de bens, somos apenas a base e, infelizmente, nem servimos como uma coceira incômoda, ao que parece. Nunca irei me esquecer do grampo do banqueiro Dantas e a frase: “Eu tenho medo é dos de base. Lá em cima, é fácil.” Já viu um HC mais rápido dado pelo STF que o dele? (Saia às ruas, Gilmar!)
    E o impeachment de Collor? Você acha realmente que fomos nós que fizemos, sem nenhum interesse deles? … Continue feliz em seu mundo ilusório, amigo.
    A esperança é última que morre. Um dia, irei ver um País que no dia do trabalhador não será o único a festejar em meio a uma crise e enxurrada de demissões e, sim, mais um a fazer protesto. Estilo os gregos, esse ano. Ou os franceses! Italianos, também… O resto do mundo.
    Porque o Lula é a cara? … Porque é o presidente do Brasil. O País com o povo mais acomodado do mundo. E não me venham com os movimentos tipos MST, sim? Eles já perderam seus objetivos há muito tempo. Não passam hoje de peões estratégicos. E, estudantes, a UNE não vai sair à rua porque não vai querer perder a enorme verba que recebe desse governo, viu? Desistam de chamá-la!
    … Falei demais. Deve ser porque gosto de pizza. Teve 11 sabores novos só semana passada, fiquei alegre demais, sabe? XD
    PS: Se você for acessar pela primeira vez no Firefox, o site http://www.planalto.gov.br, você recebe o aviso se não é um site confiável. Até o Firefox sabe que Planalto, hoje, não tem nada de bom. LOL

    Raphaella Reis: A Constituição que temos é uma das melhores do mundo – em sua estrutura inicial. E com certeza funcionaria perfeitamente – se estivesse no contexto para o qual foi elaborada: um país com parlamentarismo presidencial. Muitos juristas lamentam o fato dessa Carta precisar de tantas adaptações pra funcionar num regime para o qual não foi feito, e também lamentam o fato do povo não conhecê-la. Até em Ruanda as pessoas conhecem a Constituição do país – e fazem valer as leis cegamente, algo que um dia resultou num genocídio, cujo capítulo “final” foi notícia no mundo todo.
    De fato, o cidadão de base não serve nem pra coçar. E isso acontece porque não sabemos onde fica o pó de mico. Acho que a blogosfera, enquanto formadora de opinião, se encaixa nesse papel: aqui, na internets, qualquer um acessa os códigos. Qualquer um pode ler. Qualquer um pode saber o paradeiro do pó de mico – e dar a receita pro resto do país. Mas a blogosfera anda tímida demais, dando atenção pra Britney Spears e deixando o que interessa debaixo do tapete. E eu sei disso, vendo quantos acessos meus posts insolentes tiveram, versus os posts sobre o “escândalo Twitess(merece tudo isso?)” em outros lugares. O médio impera, e cabe aos que vão além nivelar isso – não por baixo, mas dando as ferramentas para que as pessoas se elevem. Se por acaso John Adams tivesse se conformado, ou Elizabeth – a boa, não as cópias – tivesse se acovardado diante disso… Não seriam estes os países que temos como referência de evolução(apesar de não serem nada disso na prática, em muitos aspectos).
    O Google Chrome TAMBÉM dá esse aviso de site não-confiável. E se decido prosseguir, ele fecha o navegador. E eu? Eu rio.


    gravatar Carlos Saraiva 10-08-09 - 23:05
    Eu prefiro essa internet popular, todos tendo acesso, publicando qualquer tipo de coisa. Pois assim me sinto mais perto das pessoas, de todo o tipo de pessoa. É oportunidade única de sentir o que se passa com as pessoas somente num seguir de link. Se isso me fara entender a realidade, não me interessa realidade nenhuma, acho que no meu caso é querer sentir de alguma forma essa realidade mesmo porque não tenho nenhum tipo de formação academica para dissertar ou conhecimento para dissertar ela. Que me deixa levar por isso, e me contaminar e quem sabe encontrar um solução para os meus proprios dilemas, conceitos ou ideias.

    Politicos, sou paranoico. Me lembro do Collor, ainda eu era crinaça, alias lembro do Lula tambem. Nunca gostei dele, mas na campanha que ele foi eleito eu queria poder ter cometido suicidio. Apenas não acreditava naquela imagem, naquele papo furado, foi surpreendente, surreal. Nunca confie em politco, simples, direita ou esquerda, centro ou aonde seja. Sarney, acham que vai ser realmente punido? Alguem aqui viu alguma punição realmente severa, justa, corretiva? Acham que vai ser diferente com ele? Eu simplesmente não sei o que fazer, como agir, e o fato é que eles se beneficiam de leis obscuras e privilegios. Entra outro no lugar, fará a diferença? E o presidente? Não importa o que seja, ou quem seja, não deveria parar tudo e repensar no que aconece ao inves de continuar fingindo esta tudo bem, o pais esta crescendo, tudo mil maravilhas? É nesses momentos que se avalia o presidente, que tipo de presidente temos, de qualquer forma não me sinto surpreso. Nem um pouco.

    Raphaella Reis: Talvez esta falta de surpresa diante dessas atitudes negativas nos leve ao torpor político que enfrentamos.


    gravatar Zenon de Araújo 11-08-09 - 19:23
    Bom! temos informação e não agimos. Porque? Jogo político. Essa é a resposta.
    Interesse político é o que move a informação nessa conjuntura… e a maneira como ela chega ao “espectador” não leva a ação, a solução.
    Os vários meios que “disponibilizam” a informação são partidários. A grande imprensa defende a facção “A”, e blogs – alguns – defendem a facção “B”. O que existe é uma briga ideológica.
    E o modelo político em que se sustenta a democracia brasileira permite esse jogo.

    Reforma política é a solução.

    Como fazer essa reforma quando falta políticos ilibados para tanto?
    Uma “constituinte parcial” para elaborar novas regras para o jogo, só assim, talvez, conseguiremos imparcialidade.


    “Ordem e progresso”
    Falácia positivista.

    Raphaella Reis: A possibilidade de uma constituinte parcial é nula, a meu ver, por N princípios jurídicos. Mas a democracia brasileira é feita por nós. Isso implica em dizer que nós deixamos os outros nos colocarem no picadeiro.
    E fica a dúvida. Até quando?


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