05
Out

Não sou filha, mas sou pródiga. Para tristeza de uns, cólera de outros e pânico da nação, estou de volta a esta pizzaria.
E mais uma vez, são tantos os acontecimentos que fazem parte deste recheio tupiniquim, que não faço idéia do que servir. Talvez eu possa apresentar o menu a todos. Isso seria divertido, não? Sou só eu, ou todos os estômagos leitores se revoltaram diante desta idéia? Ah, sim…
Mas vamos começar. Nesta semana, dois fatos foram dignos das manchetes brasileiras e motivo de polêmica para todos os lados: a “fraude” nas provas do ENEM, que ocasionou o cancelamento das avaliações no último fim de semana, e a escolha do Rio de Janeiro para sediar as Olimpíadas de 2016. Estes eventos causam as mais diversas reações neste povo varonil.
Mas será que, antes de emitir uma opinião, alguém parou para analisar as informações? E a questão mais importante, formulada por Alexandre Pelegi e já repetida diversas vezes por esta que vos escreve em outras oportunidades: alguém conseguiu as notícias livres de qualquer viés que visasse a manipulação da opinião pública em determinado sentido? Já disse o “célebre” Paulo Duque, antes de inocentar o douto presidente do Senado e perpetuar o ciclo de pseudo- incapacidade absoluta da nação: opinião, quem faz, é jornal.
Esta frase do parlamentar, apesar de extremamente humilhante, é um fato notório. É impossível para qualquer criatura dotada de um mínimo de racionalidade formar opinião sobre assuntos que não compreende, ou fatos que não conhece e domina.
A dúvida que não quer calar é esta: quanto, exatamente, você sabe sobre estes assuntos? Não pergunto o que leu nos jornais. Também não interessa o que William Bonner lhe disse. Quero saber o que você sabe de fato para formar uma opinião a respeito.

Não podemos sair às ruas clamando por justiça. Nenhum de nós – nem o douto ministro Haddad – pode dizer que a fraude no ENEM foi um ato criminoso contra o país. Ela foi uma conseqüência, completamente previsível, de décadas de ações impensadas e mal planejadas.

Veja bem, caro leitor: se na época do planejamento, nenhuma gráfica quis concorrer à licitação de distribuição das provas, alegando que os prazos estipulados eram curtos demais, para quê correr para dar tudo de bandeja para a única voluntária?
Aliás, quem dirige um setor ministerial cuja base é extremamente precária, não deveria tentar melhorar as coisas inovando no fim da linha, quando já estão todos fadados a fazer do ENADE a piada nacional. E a elaboração de planos decentes que priorizem a educação em seus níveis mais básicos, onde foi parar? A moda do jeitinho brasileiro também está presente no assunto Rio 2016.
Sim, “roubaram” a prova. Alguém sabe como estas provas estavam guardadas? Diz a Polícia Federal que, em alguns estados, elas ficaram nas casas dos examinadores – alguns deles tendo filhos inscritos no ENEM, provavelmente – e acessíveis a qualquer maroto que resolvesse entrar pela janela. Não que a Força Nacional de Segurança possa proteger o caderno de questões da dona de casa concentrada em fazer a lista de compras do mês.
Nunca saberemos, porque só nos contam o que querem. Não acredite nem por um segundo no heroísmo dos jornalistas que denunciaram isto; como diriam as avós, tem caroço nesse angu. E ninguém pode formar uma opinião sem ter em mãos todos os dados cabíveis, ainda mais no país em que estamos, onde na escola se aprende a decorar textos de forma divina, mas ninguém sabe o que é estudar de verdade. E eu pergunto, com a cara virtual mais lavada do mundo, se você sabe estudar, caro leitor. Ultimamente, ensinam na escola que a América do Sul possui dois Paraguais e que o Acre não existe. E você, ACREdita?
Quanto ao assunto Rio 2016, não pretendo dissertar muito sobre. Alguns acreditam que a questão seja bairrista, outros enxergam a manipulação política do evento, e ainda há os que festejam o país do futuro – estes últimos são, em sua maioria, cariocas. O consenso é de que as coisas precisam mudar, e que temos 7 anos para ver a transformação.
Mas então, caro leitor, eu questiono o que é que todos esperam que mude. Porque não que o Rio precise mudar: o Corcovado não precisa se deslocar alguns centímetros para ficar mais bonito nas fotos, o Cristo Redentor não precisa trocar de roupa para esconder as pichações e rachaduras, os morros não precisam se reflorestar sozinhos e engolir de vez as favelas e seus habitantes, e as águas de Copacabana não precisam avançar 10 metros para recolher e levar para alto-mar todo o lixo produzido e descartado nas areias pelos cariocas.
Não é o Rio que precisa mudar. É o Brasil. E quando eu digo Brasil, não é a Chapada dos Guimarães que precisa se nivelar, ou o Pantanal precisa perder suas sucuris, ou mesmo os tubarões de Recife precisando ser adestrados. O país vai bem, obrigada. O problema é o povo.
Não olhe para os lados. Você, paulista, que torceu o nariz para o Rio, mas esqueceu do fato de que se as Olimpíadas fossem em São Paulo, todos os atletas perderiam as competições por W.O. – porque nenhum deles chegaria a tempo para competir, com o nosso trânsito caótico; você, mau jornalista, que atacou o discurso do presidente por ser uma mera manobra de pão e circo, desviando atenções da fogueira das vaidades partidárias em Brasília, e o fato do vídeo mostrando o Rio convenientemente omitir as mazelas da cidade – alguém já viu vídeo exibindo os problemas de Amsterdam? Alguém SABE dos problemas que os principais chamarizes turísticos causam à população? Pois é, o governo de lá também tem uma ótima equipe de edição; todos vocês que resolveram malhar UM aspecto isolado deste assunto para manipular a opinião pública…
Vocês são povo. E você, carioca, que passará sete anos festejando a chegada dos Jogos e esperando mudanças, você é povo também. E por culpa de todos nós, pessoas desta nação com sérias deficiências mentais, vamos assistir de camarote a formação da CPI das Olimpíadas, em 2017. Pensando bem, são oito anos deste espetáculo… A não ser que façamos algo por nós mesmos. RÁPIDO. As oportunidades para isso passam, e nós vamos sempre deixando, fazendo festa e olhando a paisagem. É tudo lindo. Aqui é sempre Carnaval.

Tudo bem, parei. Por hoje chega. Não falo mais e não sonho mais. Por hoje. Até a próxima rodada de pizza… Eu estou morta de gastrite. E vocês?

ADENDO ESPECIAL: Ao me deparar com este post ótimo no blog da Cris Dias, não resisti e comentei por lá. Trago o comentário para este post – afinal de contas, ler não dói nada, caro leitor.

“Digo que não torci nem a favor, nem contra: eu queria mesmo que o COI dissesse que está de greve de Olimpíadas enquanto o mundo estiver atolado em mazelas – as lendas gregas dizem que paravam todas as guerras para que o esporte pudesse ser propriamente celebrado. E hoje, nesse mundinho cheio de pontos de vista… Creio que não somente o povo do Rio precisa mudar, mas de outros estados também. Escrevi um post hoje. Dizemos que determinada região precisa mudar. Oras, o Cristo Redentor não precisa afastar alguns centímetros pra ficar perfeito no filme ou na fotografia. O que precisa mudar é a cabeça do povo que vai visitar o monumento e emporcalha as redondezas. A praia também não precisa se encher de cimento, ou ser invadida pelas águas pra cobrir o lixo. As pessoas é que precisam se tocar que areia não é lugar de jogar garrafa, camisinha, cigarro e etc. Vi muito paulista torcer o nariz, porque “deveria” ser aqui em Sampa. Nós também não estamos imunes, temos mil problemas na cidade que complicariam a vida de todos os atletas – porque a cidade não tem mais pra onde crescer. Iriam desocupar a cidade universitária pra servir de vila olímpica e os alunos da USP com certeza fariam a baderna de sempre, com direito a carro queimando e tudo. Enfim, são oito anos – na verdade, sete anos e dois meses – pra tentar reverter o quadro. Vamos ter que puxar um JK da cartola de cada um, porque não é o político que precisa crescer 50 anos em cinco. É a cabeça do povo que precisa forçar uma evolução maciça nesse meio tempo.”

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:: Comentários

    gravatar rafael 06-10-09 - 1:51
    É o mesmo sentimento que tenho. Não me empolguei tanto ao ver que as Olimpíadas e a Copa seriam aqui. A primeira coisa que pensei foi “será que vamos conseguir aproveitar o momento direito ?”, logo aqui com tantos corruptos. Acho ótimo para os atletas, ótimo para as pessoas que vão poder assistir um evento desses, ótimo o lucro do turismo. Mas nesses eventos, outros países sempre aproveitam pra investir em infra estrutura e tecnologia.. investimento que dura e melhora a qualidade de vida da população ali.
    Tenho medo de que irá sobrar apenas “pão e circo” pro povo.. porque do jeito que o nosso cenário está, onde tiver investimento bom que puder ser desviado (seja de qualquer forma), será.

    Raphaella Reis: Concordo plenamente com isso. Mas acredito que ficar olhando o cenário podre não ajuda em nada o filme. Nós é que somos responsáveis pela produção, e precisamos trocar este set de gravação urgentemente.


    gravatar Jéssica 06-10-09 - 9:37
    Perfeitoooo!!! Sem comentárioss!

    Thus Spoke Lekkerding 08-03-10 - 10:18
    [...] Temos mais dessas soltas pelo mundo hoje que fauna e flora selvagem. Mas acho que já disse isso por aqui, e em outros lugares, de várias formas. Vamos de [...]

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