25
Jan

E venho cá pagar mais uma dívida – devo um post desde sexta, não é? Pois é. Mas achei melhor esperar, pois este texto tem um significado muito maior hoje que em qualquer outra data.

Aviso aos navegantes: óculos e paciência à mão. Post longo incoming.

A terra da garoa sopra suas 456 velinhas. Há quem acredite que a cidade não tem muito a comemorar: estamos atolados em congestionamento, poluição, falhas infra-estruturais graves, violência, crescimento desordenado…

Pergunta: qual cidade desse país NÃO vive esses dramas? Ou alguém acredita que criminosos lançando mísseis – ou qualquer que seja o armamento pesado em voga para a Criminalidade Maravilhosa – na polícia é sinônimo de harmonia? Alguém vê exemplo de organização e planejamento no crescimento do Maruim? O transporte público é perfeito em algum lugar do Brasil? Esse monte de enchente em Santa Catarina também não reflete falhas na infra-estrutura?

Por que só nos outros lugares é calamidade, e em Sampa vira incompetência?

Não adianta apontar pra São Paulo e ver estes defeitos como se fossem exclusivos daquela listada como uma das maiores metrópoles do mundo. Todas elas sofrem disso. O importante é ressaltar como contornar, ou até mesmo (eu sei, sonhador, romântico, quase Byronista de minha parte) resolver estas questões. No Rio, o Lula resolveu rapidinho: passou um Photoshop básico e mandou o vídeo pro COI. Oba, Olimpíadas. E aqui, como fica?

No debate “A cultura salva São Paulo?”, ocorrido em 21 de janeiro, no MASP, Marcelo Tas, Ivam Cabral, Alexandre Youssef, Jorge Wilheim e Carlos Augusto Calil discutiram sobre determinado setor que acabou amenizando muitos problemas em Sampa: a cultura. Através dela, cada qual com seu nicho, eles conseguiram revitalizar muitos pontos da cidade antes considerados perdidos.

Ivam Cabral trouxe o exemplo dos Satyros, grupo de teatro responsável pelo renascimento do Teatro Bela Vista e pela revitalização da Praça Roosevelt, antes classificada como um dos pontos mais perigosos de São Paulo. Hoje, os Satyros possuem dois espaços na praça, vários projetos engajados e um bar muito charmoso. Conquistaram não só o público, mas a reconstrução da área em vários aspectos – mais limpa, mais segura e mais valorizada pelo mercado imobiliário. Durante o debate, Cabral foi enfático: “não precisamos do dinheiro público nesse empreendimento. Somente da nossa determinação e da vontade de mudar dos moradores”.

Alexandre Youssef, sócio do Studio SP, trouxe outro exemplo de sucesso: assim como Vegas, Inferno, Astronete e outros clubes, o Studio SP faz parte da ressurreição da Baixa Augusta, antes sinônimo de meretrício a céu aberto. Youssef foi muito crítico sobre a atuação do Poder Público na área, classificada como inexistente; também fez uma comparação interessante entre Cracolândia e Augusta – onde o governo investe pesado em recuperação, nada ocorre; mas em lugares praticamente ignorados, a revolução acontece.

Youssef também fez uma observação importantíssima: a Augusta não mudou. Nem suas imediações. Continua sendo pólo de diversidade – gente bonita, feia, rica, pobre, negra, branca, gorda, magra, maluca, sã. Para estar lá, é preciso saber conviver com as mais variadas nuances de diversidade. Em off, ele mostrou muita descrença quando questionado sobre a proposta do Lions Club, que pretende ser a nova moda em baladas para a elite e mudar completamente o bairro.

Jorge Wilheim e Marcelo Tas desempenharam bem seus papéis provocadores. Enquanto Tas atacava os pontos mais chatos da cidade, Wilheim exaltava a mágica de outrora, estimulando o imaginário dos mais jovens e emocionando quem tinha lembranças dos tempos de “ir à cidade”. Jorge Wilheim usou os presentes na mesa para ressaltar que São Paulo é uma cidade de e para imigrantes e seus descendentes. Nós é que fazemos a cidade, e não podemos esperar que alguém a faça para nós. Com a vasta experiência de Wilheim no assunto Sampa, só nos resta aplaudir. Tas chamou atenção para algo curioso: quando o Poder Público chega, trazendo acessibilidade ao centro, ele muda de lugar. Antes, era a Sé. Depois, a Paulista. Então, a Faria Lima. Dali, pulo para a Vila Olímpia – agora o centro está “quieto” na Berrini, mas com a expansão da malha viária e acesso facilitado, será que ele não corre outra vez?

Carlos Augusto Calil, secretário municipal de Cultura, teve uma atuação um pouco apagada. Mas quando falou, foi firme e tão enfático quanto Ivam Cabral: “A sociedade abandonou o centro. Temos uma cidade privatizada, onde a demanda por espaços é muito grande. A administração municipal cria condições para o espaço, mas não tem condições de atuar na capilaridade”. Calil reconhece que, com a atual estrutura, não é possível encaixar na pasta a distribuição e utilização desses espaços. Isso é com a gente, a sociedade.

No geral, foi um bom debate – apesar da falta de interação com o público durante, após foram todos solícitos. Foi mais um bate-papo sem cerveja que um debate, a meu ver.

Mas dois pontos foram unânimes para todos: a diversidade cultural de Sampa a torna única, em todos os aspectos possíveis e imagináveis. Somos parte da cidade que, apesar do caos, cresce em relacionamento humano todos os dias. Estamos em São Paulo, a terra das possibilidades. Onde sempre tem algo bom acontecendo – e a pior sensação do mundo é saber que tem algo acontecendo e você não está lá pra ver. A terra das mil maravilhas, mil possibilidades e 1001 utilidades é essa aqui – e é nossa, nós é que temos que fazer por ela. A cidade é NOSSA há 456 anos. Isso não é motivo pra comemorar?

E claro, o mercado imobiliário é o grande vilão da história.

Parabéns, Sampa. 456, com corpinho de 114 e cabeça de 228. Os geeks organizaram uma mega festa, espero que goste!

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:: Comentários

    gravatar giannini 30-01-10 - 9:34
    Você tem jeito de jornalista. Você é jornalista?

    p.s. Coisas bem especiais acontecem em São Paulo. Espero algum dia poder estar aí.

    ;)


    gravatar Lekkerding 30-01-10 - 22:36
    Eu não sou jornalista – apesar de agora todos sermos, conforme o STF. Mas respeito e admiro quem seja, por mérito.
    E eu espero que você possa conhecer a cidade MESMO. E tirar fotos lindas como as do seu blog. Suponho que L.F. seja você.

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