08
Mar

Olá, pessoas. Hora de cumprir o prometido. Não será fácil. Não será agradável. Mas será algo. Espero que seja, digamos, “informativo”. Como sempre, eu NÃO me responsabilizo pelas cataratas, miopias, enxaquecas e afins derivadas do texto longo.

É onde estamos agora. A era da informação. Há 100 anos, demorávamos meses para tomar conhecimento de qualquer coisa que ocorresse no mundo – talvez por isso todo mundo precisasse fazer fofoca pra matar o tédio – e hoje assistimos o mundo todo ao vivo. Agora tem esse monte de coisas pra saber, discutir, analisar…

Informação. Temos mais dessas soltas pelo mundo hoje que fauna e flora selvagem. Mas acho que já disse isso por aqui, e em outros lugares, de várias formas. Vamos de novo.

Sim, somos bombardeados por informação. E ela continua sendo um dos bens mais caros – em todos os sentidos – da Humanidade. A razão é simples e muito triste: são poucos os que podem interpretar. Ainda mais raros os que entendem o poder contido nessa palavra; contar os que sabem operá-lo seria simplesmente cruel. Diante da tentativa, sinto-me uma idiota. Imagina quem lê.

E aí mora o perigo. Convivermos todos os dias com gente brilhante, gente mediana, gente burra e gente que simplesmente não sabe. O problema é observar, todos os dias, gente que sabe, gente que leva com a barriga, gente que não leva e gente que simplesmente não sabe andando juntos, interagindo, “trocando” coisas.

“Ah, mas isso é bacana. As pessoas aprendem e ensinam”

Essa é a teoria. E como todas as teorias existentes em nosso mundo, é linda em sua nuvem gloriosa das idéias. Mas na prática, é outra história. E quem sabe, manipula quem leva com a barriga pra ensinar o suficiente aos que não sabem, para que eles se tornem os próximos condicionados a embarrigar tudo. Quem não leva, vira comédia no Pânico na TV. Simples assim. E cruel assim.

Fará mais sentido para as pessoas legais que decidirem ler o livro de Luciano Pires, Brasileiros Pocotó. A cada página eu pensava “digo isso o tempo todo. Por que não me ouvem?”. Eu entendi lendo o livro.

Por incrível que pareça, Luciano não fez 155 páginas falando mal do Brasil. Longe disso. Ele disseca, com a precisão dos bisturis de Grey’s Anatomy, tudo que o país poderia ser. Fala com muita alegria e entusiasmo das coisas esplêndidas que já é. E surpresa, nenhuma dessas remete a samba, futebol, carnaval ou mulheres. O quadro tupiniquim pintado por Luciano Pires é animador, e chega a dar orgulho desta terra. O que nos leva à pergunta óbvia… Então, por que “pocotó”?

Resposta (na minha opinião): temos gente mediana demais. E a culpa é nossa. Porque antes tínhamos muita gente sem saber – os chamados analfabetos. O analfabeto não é só o tadinho que não sabe assinar o próprio nome. É o cara excluído do mundo por não ter nenhuma ferramenta pra processar aquela coisa cara que citei no começo do texto: informação. É uma folha em branco, onde podemos escrever o que quisermos. E como ele não tem base, ele aceita o que dermos.

Antes, tínhamos muitas folhas em branco. Mas também tivemos muitos espertalhões, preenchendo essas folhas com ferramentas defeituosas. Enchendo nossas sulfites promissoras de “pobremas”. E elas ficaram medianas. Não são obras de arte, mas também não estão em branco. São garatujas, dão pro gasto. Elas agora têm ferramentas para “processar” o bem mais caro da Humanidade, conforme a vontade dos que realmente interpretam, compreendem e operam este tesouro. Não processam como deveriam; mas conforme a demanda dos brilhantes.

As folhinhas promissoras fizeram como manda a Bíblia. Cresceram, multiplicaram, passaram aos seus tudo que tinham. E fomos moldando garatujas prontas a processar somente a informação que nos interessa, como ela interessa, quando nos interessa, até onde convém. E damos às nossas garatujinhas as pessoas que realmente não sabem e não se interessam em saber – os burros, em português claro. Diante do burro, o mediano se sente melhor. Superior. E continua engolindo o que as mentes brilhantes e espertalhonas dão, quase sem questionar. São os chamados analfabetos funcionais. Eles agora assinam o nome no contrato – e sabem achar as letrinhas miúdas, lêem tudo. Mas não fazem idéia do que aquilo significa.

Estamos um país de PATOS. Lembram da metáfora do pato? Um dos animais mais completos da natureza. Ele nada, voa, corre e anda, mas não pode fazer nada disso direito. Apesar de poder fazer todas essas coisas, ele não nasceu pra fazer nenhuma delas. Então, tudo que ele faz fica “mais ou menos”. Meia boca. Ele funciona, dá pro gasto. Mas em longo prazo, é uma péssima idéia ter – ou ser – um pato.  Vocês sabem o que acontece com o pato no fim da música, não?

E você, que se sentiu ofendido com essa, pretende sair dos meus feeds, bloquear no Twitter e nunca mais voltar a esta humilde página, pense nisso: nós estamos em ano de eleição – mentira deslavada porque esse ano começou ano passado – e o Brasil só consegue pensar em Tessália, Serginho, Dicesar, Rebolation, Gaga, Helena… Por Deus, as pessoas conseguem pensar em fazer pipoca pra assistir tragédia ao vivo. Mas elas não conseguem debater seus candidatos. Não conseguem pesar prós e contras e olhar o quadro político do país – não olhe agora, você pode se assustar ao perceber o que estão te armando. Elas acham chatíssimo ler o cabeçalho de uma carta-proposta, avaliar as ações daquela pessoa – ou partido – na situação E na oposição. Eu duvido que elas saibam o que é isso – quase um ano falando sobre política e ninguém percebeu de onde saem os títulos destes posts. Elas vão assim, medianas, sendo analistas de BBB e em outubro jogarão o voto na urna como quem joga chiclete velho no lixo. Porque vão votar no candidato bonitinho. Ou naquele que distribuiu camiseta. Ou no que tirou foto com o filho no colo. Escolham o gesto populista que quiserem do menu; será ele a garantia de voto.

E quando estivermos na próxima “pior crise dos últimos tempos” ou no próximo “maior ultraje ao povo brasileiro”, elas dirão que a culpa é do governo. A culpa é dos outros. Povo são os outros. Assim, sem mais. É isso que ocorre quando temos gente mediana demais agindo pelo futuro do país: ele deixa de ser uma obra de arte. Vira garatuja, à imagem e semelhança de sua nação.

Até a próxima, caro leitor. E não se chateie com as duras palavras, que nada mais são que a reação de alguém inconformado com este povo que sorri diante da morte iminente por inanição. [2]

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:: Comentários

    gravatar mdom 08-03-10 - 12:29
    Texto muito bom, como sempre!
    Vou ver se acho esse livro por aqui…

    gravatar rafael 10-03-10 - 10:06
    Também fiquei com vontade de ler este livro. Ótimo texto !

    gravatar Garabet Kissajikian Jr 11-03-10 - 1:13
    Gostei do texto,
    contudo atrevo me a respondê-lo…

    Como se fosse lógico… mas é lógico!!!
    Quando se preconizou “não atireis pérolas aos porcos” não se estava impedindo, contudo, de dar alimento apropriado….

    Se todos nós nascemos originais e morremos cópias, jamais poderemos mudar nada sem que primeiro aceitemos interiormente, isto implica no sujeito se desalienar desse objeto-causa de desejo (mediocridade…) que se confunde com pactuarmos as mesmas banalidades para podermos ser iguais…
    Porém, eis que a verdade analítica não é tão misteriosa, ou tão secreta, que impeça de ver a verdade espontaneamente!!!

    Assim, se faz necessária uma subversão analítica, ao estilo lacaniano, e adotar o que se chama de Discurso Analítico, o qual subverte o discurso corrente, ou seja, o Discurso do Mestre ou do Senhor, que pretende usar a linguagem para exercer um domínio através do poder do conhecimento e das leis positivas.

    Isso pode implicar em mudanças…
    É lógico!!!

    Garabet


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